Home > as cats > SIMONE CARDOSO MOTA
Sim, foi bem difícil até agora… E sim, eu tenho total consciência de que vai continuar difícil por um bom tempo… Mas eu sou forte e aguento. E às vezes penso que, quando a gente é diagnosticada com uma doença tão “temida” como um câncer, todas as pessoas à nossa volta deveriam ser convocadas pra uma aula de “Como lidar com o seu ente querido durante o tratamento de câncer”.

Para aqueles que não estão tão por dentro do que está acontecendo comigo, peço desculpas se iniciei pelo meio da história… Segue um breve resumo… Em agosto, em exames de rotina, apareceu num ultrassom um pequeno nódulo em minha mama esquerda. Após uma biópsia do nódulo, fui diagnosticada com um câncer inicial, de simples solução: bastava tirar aquele pedacinho da mama onde estava o nódulo e fazer um tratamento de radioterapia. Deu. Resolvido. Simples assim. Mas meu histórico familiar me fez optar por uma mastectomia bilateral que além de me livrar da radio, me livraria também do pesadelo de, a cada seis meses, fazer exames e ficar na expectativa de um novo câncer. Acontece que na biópsia do material retirado na cirurgia apareceram muitas coisas que não apareceram nos exames de imagem. Isso modificou completamente o cenário anterior. Agora, além de ter a certeza de ter feito a melhor opção (mastectomia bilateral) veio a questão de que eu PRECISO fazer o tratamento com quimio, radio, remédios e tudo o mais que tiver direito. Pacote completo. Já iniciei a quimioterapia. No dia 25/11/2016 eu iria colocar um cateter pra uma semana depois iniciar a quimio O médico recomendou a colocação do cateter porque a quimioterapia é uma medicação injetada na veia e minha veia é muito ruim de pegar. Além disso, mesmo quem tem boa veia, às vezes tem problemas pois a quimioterapia é bastante agressiva e pode causar “estragos” na veia. Por questões de burocracia do plano de saúde, não consegui autorização a tempo e então, em vez de colocar o cateter, fiz a primeira sessão em 25/11/2016 direto na veia. Com relação aos efeitos colaterais dessa primeira sessão, posso dizer que esperava uma tormenta e veio uma chuvinha com apenas alguns poucos trovões. Os primeiros 3 dias foram um pouco desagradáveis. Depois desses 3 dias pude observar alguns efeitos colaterais pouco conhecidos da quimio como alterações de humor e malditas aftas. Mas posso dizer com convicção que tudo o que tive de efeitos colaterais não foi nada perto do horror que eu esperava. No mesmo dia que fiz a primeira sessão de quimio, cortei meu cabelo bem curtinho. Preciso me acostumar com menos cabelo. Afinal, logo não terei nenhum. Sim, ficou ótimo. Sim, TODO MUNDO prefere meu cabelo curto. Sim, é super prático. Sim… Sim… Sim… Pra todo mundo. Mas não pra mim. Todo mundo prefere meu cabelo curto, mas o cabelo é meu. Eu prefiro comprido. Não cortei porque quis. Cortei apenas pra mudança não ser tão radical depois (como se assim já não fosse radical…). Depois de duas semanas da primeira quimio, consegui colocar o cateter. Pra quem não sabe, o cateter é um dispositivo que é colocado no peito embaixo da pele logo abaixo da clavícula (numa mini cirurgia) que permite que a quimioterapia seja injetada através do cateter. Bom, o cateter também acaba levando a quimioterapia para a veia, mas aí é uma veia que fica perto do coração de calibre bem maior que as dos braços e das mãos e aí não acontecem os “estragos”, por isso é melhor ter o cateter. Algum tempo depois de finalizado o tratamento de quimioterapia é feita novamente uma pequena cirurgia para a retirada do cateter. Mais ou menos na mesma época da colocação do cateter (duas semanas depois da quimio) meu couro cabeludo começou a ficar dolorido. Esse é mais um efeito colateral que eu não conhecia. E é o prenúncio da queda. É no banho que a gente percebe que o cabelo está começando a cair. Ficam mais cabelos na mão do que de costume. E aí você pensa “é tão pouquinho, e é só no banho, acho que vou conseguir manter o cabelo ainda bastante tempo”. Fora do banho, meu cabelo praticamente não cai nada. Percebi alguns fiozinhos no travesseiro nas manhãs. Mas muito poucos. Aí um belo dia você vai dormir sem conseguir encostar direito a cabeça no travesseiro por causa da dor no couro cabeludo e acorda sem dor alguma. Como mágica. E quando olha o travesseiro, parece que ficou ali a metade dos fios de cabelo que você tem. Pelo menos foi assim que acordei no dia 15/12/2016. E então já não tenho tanta certeza de que ainda vou conseguir manter a cabeleira até o Natal, mesmo faltando apenas 10 dias . E nesse mesmo dia aconteceu a minha segunda sessão de quimio. Essa sessão já foi feita utilizando o cateter. Resumidamente, esta é a história e é neste ponto que me encontro hoje. E agora posso falar o que realmente queria quando comecei a escrever.

ESCOLHAS. Eu não queria ter tido câncer. Não foi uma opção minha, simplesmente aconteceu. Ter um diagnóstico de câncer é, inicialmente, assustador. Mas eu, ao contrário do que muitos pensam, sou forte. EU ESCOLHI mastectomia bilateral. Eu poderia ter feito uma pequena cirurgia, mas… Se tenho que passar por uma cirurgia porque eu pensaria em tirar só aquele pedacinho se posso afastar o fantasma de passar por isso de novo? Depois da cirurgia o cenário mudou e eu preciso passar por um tratamento de câncer pacote completo. EU ESCOLHI começar o tratamento “ontem”. Por que ficar esperando e aumentar a angústia? Comecei assim que foi possível. Eu não quero ficar careca. EU ESCOLHI cortar meu cabelo curto logo depois da primeira quimio porque estava sofrendo com a ideia de ficar careca. Por que não ir me acostumando com a ideia vivenciando uma situação menos radical?

Não, eu não queria ter tido câncer. Mas aconteceu e nada vai mudar isso. Eu poderia simplesmente não fazer nada. E a doença com 95% de chance de cura me venceria. Essa era uma opção? Óbvio que não. Ainda que a chance de cura fosse mínima, eu não poderia deixar uma doença me vencer. Não sem ao menos ter lutado. Então, não fazer nada não era uma opção. Minha única alternativa seria passar por isso, seria lutar e vencer, enfrentando seja lá o que tenha que enfrentar. Eu poderia lutar chorando, me lamentando… Mas isso em nada me ajuda. Pelo contrário, toma momentos preciosos da minha vida. EU ESCOLHI passar por isso da melhor maneira possível. É claro que tenho meus momentos ruins. E eles são necessários para eu escoar um pouco a avalanche de emoções que tomam conta de uma pessoa que passa por uma doença como essa. Mas são momentos. Passo por eles e me levanto em seguida pra continuar a luta. Em nenhum momento fiquei me perguntando “por que comigo?”. Mas de certa forma acho que a doença tem um lado “bom”. Entre aspas, que fique claro. Ainda com um lado “bom”, meu lado preguiçosa continua achando que seria melhor não ter tido câncer. Mas…

Bom, eu não vou falar aqui tudo de “bom” que o câncer me trouxe. Mas a minha relação com meu filho que tem 12 anos é uma coisa que acho que eu poderia citar. Eu resolvi ser com ele o mais sincera possível sobre tudo o que me acontece. Desde o diagnóstico, a cada novidade nós sentamos e conversamos. Eu conto tudo o que estou passando, falo do tratamento, dos meus medos e das minhas angústias e ele, para minha surpresa (porque é o meu bebê) se mostra muito maduro. Eu pude perceber o quanto ele amadureceu com tudo isso. E olha que nós ainda estamos no início da luta. Mesmo ele ainda sendo o meu bebezinho, ele é um adolescente e pode aprender um pouco da vida com tudo isso e ao mesmo tempo me ajudar a passar por isso. E ele tem me ajudado muito.

Tem uma história que diz que nas horas boas você sabe quantos amigos você tem e que nas horas ruins você sabe a qualidade deles (não lembro se é bem assim a história, mas é mais ou menos isso). E eu pude comprovar isso na prática e ter a grata surpresa de que tenho MUITOS amigos de excelente QUALIDADE. Mais um item do lado “bom” do câncer.

Eu poderia escrever ainda muitas outras coisas do lado “bom” do câncer, mas assim não terminaria nunca esse texto. Tudo o que escrevi até então foi pra poder chegar neste ponto e falar o que queria lá no início.

Todos aqueles que me amam são muito FOFOS! São muitas mensagens de apoio, ligações, visitinhas, etc. E eu quero que fique bem claro que AMO MUITO TUDO ISSO. Todas as demonstrações de carinho, todas sem exceção, me ajudam a ter mais força pra enfrentar a doença e o tratamento da melhor forma possível. Mesmo aquela pessoa que passa muito tempo sem dar sinal de vida e de repente manda uma mensagem “Eu sei que você deve contar a mesma história pra um monte de gente, então nem vou perguntar como está passando… só queria dizer que estou aqui pro que precisar”. E sim, às vezes é muito chato contar a mesma história mil vezes, às vezes é muito chato “ouvir” mil vezes os mesmos “consolos”, às vezes é muito chato querer estar sozinha mas receber as visitas ou ter pessoas dormindo aqui justamente pra eu não ficar sozinha… Às vezes TUDO é muito chato.

Queria aproveitar só pra esclarecer algumas situações.

“Teu câncer é de que mesmo?” Não é “MEU” câncer. Os olhos são meus. O sorriso é meu. Até o silicone é meu, já que acabei pagando pra tê-los. Mas o câncer não é meu. O câncer FOI uma doença que se instalou em mim. E já FOI. Não está mais aqui. Agora passo por um tratamento preventivo pra mantê-lo longe…

“Que bom que foi inicial né. Pelo menos tem tratamento”. Sim, ótimo que eu possa fazer um tratamento. Sou grata por isso. Mas o tratamento não deixa de ser uma tormenta. É o preço que se paga pra vencer. E quem vai passar por toda a tormenta sou eu, não você.

“Sabe que todo mundo adorou o curtinho e ainda tá falando que quer cabelo longo?” Estou curtindo meu cabelo curto mas com saudade do cabelo longo. Sei que ficou bom, que todos gostaram, mas eu quero meu cabelo longo, entendeu? Vai demorar bastante, mas meu cabelo vai voltar a ser longo ASSIM QUE FOR POSSÍVEL.

“Vai ficar careca, mas cabelo é o de menos, cresce”. Eu sei que cabelo cresce. Até uma criança pequenina sabe disso. E vou curtir minha careca assim como estou curtindo o curtinho. Vou usar lenços, chapéus, perucas, sei lá mais o que… Mas eu quero meu cabelo longo, deu pra entender? E já que é pra detonar, essa vai pros homens carecas que brincam que me compreendem…Sabe aquela piada do bêbado e da feia? A moral é a mesma. Vai demorar, mas o meu cabelo vai crescer! :p

Com essas situações que citei quero dizer que apesar de toda a solidariedade e carinho que recebemos nesse momento, às vezes não existe consolo. A intenção, eu sei, é a melhor possível. Mas a gente apenas paga o preço que tem que pagar pra ficar bem. Seja enfrentar uma cirurgia, ter enjoos ou ficar careca. É assim. Por isso, não são as palavras que me dão força, mas o carinho e a atitude de cada um.

Agradeço quem teve a paciência de ler até aqui. No fundo, no fundo, eu só gostaria de dizer que não escolhi passar por isso, mas não é isso que vai me derrubar. E que vocês são muito importantes pra mim nesta luta. E peço que compreendam quando me isolo ou lamento alguma coisa. Mas essa não é a regra, é a exceção. Eu sou e CONTINUO SENDO muito feliz por ter todos vocês na minha vida.

Ainda bem que não existe aquela aula de “Como lidar com o seu ente querido durante o tratamento de câncer””. Porque apesar de toda essa CHATICE, e pode ser que agora alguém não entenda, é tudo isso que me faz ter a força que preciso nesse momento.

Sim, já são quase 3h da manhã e ainda estou aqui acordada escrevendo… Às vezes durmo muito, às vezes não durmo nada… Provavelmente só vou conseguir dormir quando já estiver amanhecendo. A falta de constância no sono é mais um efeito colateral da quimio…

Beijos a todos!!

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